No albergue conheço o Brian, americano de nascimento, mas coreano na cara e descendência direta. Assim como o Sumeet, ajuda-me a consolidar uma ideia mais plural dos EUA. Uma terra de imigrantes, talvez não miscigenada como o Brasil, mas não menos diversificada. Com seu trejeito maneiro de californiano aos 23 anos, Brian me instiga a fazer trilha logo de cara. E nos vamos. Hasta el "Chorillo del Salto", una cascada muy cerca. O caminho curto não foi dos mais empolgantes, mal cantamos 3 canções dos Beach Boys. E ao chegar, muy bien, um belo exemplo de cachoeira patagônica de águas claras (y frías) de degelo. Lembro-me novamente do velho professor, que dizia: "é nas quedas que o rio mostra sua força". Uma metáfora de uso corrente, sem dúvida. Decidimos subir por uma trilha até a parte superior da cascata. Nada mal, uma boa vista dos campos logo abaixo. Sentamos e conversamos um bocado sobre os "fatos da vida". Ele tem uma namorada meio vietnamita-alemã que está morando em Hong Kong (mundo vasto mundo). A primeira garota, estão juntos há 3 anos. Seria ela "the one"? Tento transmitir-lhe algo do alto dos meus 30 anos de encontros e desencontros. Não que se possa responder à (fa)tal pergunta de alguém, claro. Minha primeira camada se revela um tanto cética, lembro de meu irmão Othon ecoando Vinícius: "de cada amor herdarás só o cinismo". Divagando um pouco mais, lembro-me do que dizia a Annika, cantora sueca do Hello Saferide. "Na vida, todo mundo que conhecemos nos lembra alguma música". Se ela te inspira "God Only Knows", então não precisa mais procurar. Ele concorda que a canção dos Beach Boys não é prá qualquer um. Pfff, meu filho - romantismos idealísticos à parte - faça como quiser, mas faça sua escolha de vida: sua "walk of life". Também conversamos sobre livros. Aparentemente ele é fã do Kerouac e do Salinger, em especial do "Apanhador No Campo de Centeio". Comendo uma barra de cereal, relembro como também me fascinou há uns 8 anos a narrativa franca do Holden Caufield, que fala ao âmago de qualquer jovem às voltas com seu "coming-of-age", passagem à adultez. Fase de conflitos marcantes de identidade, propícia a crises e eclosão de transtornos mentais. Bem, mas não é assim que trata o Salinger. Ele prefere as metáforas. Em meio a casuais e não menos acachapantes constatações da hipocrisia reinante e do vazio à espreita numa perspectiva de vida incerta, o marginalizado (mas não alienado) Holden sonhava na vida segurar as crianças que brincam na plantação à beira do despenhadeiro. Taí um livro que mexe com as pessoas (inclui-se o psicótico assassino de Lennon), de qualquer lugar.
Para a volta, ainda um tanto carentes de adrenalina, decidimos descer pela encosta oposta, sem qualquer trilha à vista. Isto é, decidimos nos embrenhar no mato até fazer nosso próprio caminho de volta para Chaltén. Nada de zorros (raposas patagônicas), huemuls (tipo de cervo) ou pumas no caminho; apenas uma amostra de natureza em estado natural, com o perdão do pleonasmo. Sem a mão tendenciosa do homem, uma coisa fica clara: nada mais natural que a morte. Cadáveres de troncos petrificados por todo lado servem de abrigo e substrato para tantos outros seres, lembrando que o ciclo da vida é a regra. Só pode haver renovação onde há perecimento. Mais abaixo, mato mais alto e mais árvores, trazendo uma pontada de incerteza de nossa localização. E se não houver passagem? Teremos que encarar uma dura subida de volta até o topo do morro. Tudo bem, enquanto houver luz, haverá tempo. Deixo a mente divagar. Assim foram talhados nossos genes: para sobreviver, competir e reproduzir. Milhares de anos de evolução natural em ambientes inóspitos para chegar aqui. Se Darwin estava certo, a luta pela vida proclama em nós as vitórias de nossos antepassados. Existe uma memória filogenética de cavernícola matador hibernando em cada urbanoide sedentário, apenas aguardando o estímulo devido para a luta (ou fuga, claro). Esse pode ser um pensamento bem revigorante para momentos selvagens. O medo é natural, o pânico que paralisa é um capricho da civilização neurotizante. Vinde a mim, ó pumas.
Os pumas não aparecem, mas sim a trilha para Chaltén, em poucos minutos. Um gostinho de vitória, não fomos selecionados para reciclagem, ainda. Já podemos pensar no jantar. A civilização entretanto, vai ter de esperar. Não há internet nos albergues. Posso dormir mais cedo sem as divagações e comunicações virtuais de praxe. Quanto menos comodidade, mais liberdade?
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