Enfim, falando das coisas boas, a paisagem no caminho por si só merece um livro. Não que as planícies patagônicas sejam particularmente maravilhosas, mas me pareceram convidativas à reflexão (talvez tenha passado tempo demais na janela). Em meio à poeira das estradas de rípio (o cascalho deles), a visão se perde no horizonte plano como um oceano de desolação. Quanto mais se afasta do Equador, mais lenta a rotação da Terra, de fato. Ao sair do Paralelo 8 para o 55, devo ter ficado com terra-lag, já que aqui gira particularmente devagar. Metáforas à parte, as pradarias sugerem uma paisagem que pouco mudou nas últimas décadas. As ovelhinhas parecem viver em câmera lenta. As cercas atestam a ocupação humana, mas pode-se levar horas até ultrapassar um carro ou testemunhar viv'alma. Além do vento (invisível, mas onipresente), apenas a corrida dos guanacos movimenta o filme. Assim foi melhor mesmo contar as ovelhinhas e dormir um bocado...
Os dias aqui estão bem longos, mas também acabam, e só depois chego a Puerto Natales. Às 23:30 poderia ser bem perigoso andar por ruas desertas no Brasil, mas bem, vamos tentar deixar a paranoia urbana no passado por enquanto. Chegando ao albergue Kaweskar do Omar, o ambiente meio rústico me faz logo sentir em casa. Agora é reconhecer o terreno para me preparar para o trekking da minha vida: o famigerado *W* em Torres del Paine. A simpática Natales é praticamente uma base de exploradores do mais sensacional parque nacional chileno. Assim, não foi difícil juntar-me à Julie (francesa), David (inglês) e Marjolein (holandesa) para formar nossas nações unidas do camping. Desta forma tudo fica mais barato e seguro (e divertido!) para todos. Expedição formada, ansiedade crescente. Essa não vai ser fácil, mas até aqui, eu tenho a benção da semi-ignorância mesclada à empolgação do novo desafio...
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